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Desenvolvimento da Fala e Gagueira Infantil: Quando a Disfluência é Esperada?

“É normal o meu filho repetir tanto?”
“Isso é uma fase ou já é gagueira?”
“Quando devo procurar um fonoaudiólogo?”

Essas perguntas aparecem com frequência quando a criança começa a interromper o fluxo da fala. E existe mesmo uma zona de dúvida: todas as pessoas apresentam disfluências em algum momento, e a criança pequena pode apresentar muitas delas enquanto a sua linguagem está a desenvolver-se. O desafio é entender quando essas interrupções ainda fazem parte do desenvolvimento e quando começam a ter características de gagueira.

Durante o desenvolvimento da linguagem, é comum a criança hesitar, repetir palavras ou frases, usar interjeições como “é…” e “hum…” e mudar o que estava a dizer no meio da frase. Isso pode acontecer especialmente quando ela está a tentar organizar uma ideia, encontrar uma palavra ou construir uma frase mais complexa.

Por exemplo:
“Eu quero… eu quero aquele carrinho.”
“Nós fomos à… à casa da avó.”
“Eu queria… quer dizer, ontem eu fui ao parque.”

Essas são chamadas de disfluências típicas do desenvolvimento. Em geral, não vêm acompanhadas de esforço físico, tensão ou sofrimento para falar. A criança simplesmente interrompe, reorganiza e continua a sua fala. Ela não tem consciência das disfluências.

Mas existem disfluências que merecem mais atenção

Na gagueira, o que observamos não é apenas que a fala ficou “presa” ou que a criança repetiu alguma coisa. Existem características específicas. Podem aparecer:

  • Repetições de sons ou sílabas: “p-p-papá”, “bo-bo-bola”
  • Prolongamentos: “ssssapo”
  • Bloqueios: a criança tenta iniciar a palavra, mas o som não sai naquele momento
  • Tensão ou esforço físico durante a fala
  • Movimentos associados, como piscar os olhos, fazer caretas ou movimentar outras partes do corpo
  • Frustração, irritação ou outras reações diante da própria dificuldade para falar
  • Em algumas crianças, comportamentos de evitação, como deixar de falar ou evitar determinadas palavras e situações

É justamente essa combinação que merece ser observada com mais cuidado.

A gagueira do desenvolvimento costuma começar na infância, principalmente nos primeiros anos. Cerca de 95% das crianças que gaguejam iniciam os primeiros sinais antes dos quatro anos, e o início pode acontecer de forma gradual ou mais repentina.

Por isso, encontrar disfluências aos dois, três ou quatro anos não é, por si só, motivo para concluir que existe um problema. O que importa é como essa disfluência acontece. Não te prendas à idade.

Uma criança pode passar por um período em que fala de maneira mais interrompida e depois apresentar menos disfluências. Também é possível que elas apareçam, desapareçam por algumas semanas ou meses e depois voltem. Essa oscilação faz parte da realidade da gagueira infantil e também mostra por que não é adequado avaliar a situação a partir de um único dia de fala.

E o que merece investigação?

Alguns sinais tornam a avaliação fonoaudiológica especialmente importante:

  • Repetições frequentes de sons ou sílabas
  • Prolongamentos e bloqueios
  • Aumento da frequência ou da intensidade das disfluências
  • Tensão ou esforço visível para falar
  • Movimentos associados do corpo aos momentos de disfluência
  • Demonstração de frustração ou preocupação com a própria fala
  • Tentativa de evitar palavras, situações ou momentos de fala
  • Histórico familiar de gagueira
  • Persistência das características ao longo do tempo

Nenhum desses sinais, isoladamente, fecha um diagnóstico. A avaliação precisa considerar a história da criança e a forma como ela fala em diferentes situações.

Ainda é bastante comum ouvir que a melhor opção é esperar, porque “é uma fase”. Essa orientação é simplista demais. Não esperes.

É verdade que muitas crianças deixam de gaguejar ao longo do desenvolvimento. Mas também existem crianças cuja gagueira persiste. Por isso, diante de sinais consistentes de gagueira, a avaliação não precisa de ser adiada até que a dificuldade fique intensa.

Avaliar não significa que a criança precisa de começar uma terapia imediatamente. Significa entender o que está a acontecer e decidir se o melhor caminho é orientar a família, acompanhar a evolução ou iniciar uma intervenção.

Uma avaliação fonoaudiológica especializada em fluência pode ajudar a entender o que está a acontecer e qual é a melhor conduta para aquela criança.

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Tatiana Cavalcanti

Fonoaudióloga Especializada em Gagueira
CREFONO 4 10043/PE