A importância dos textos rimados no desenvolvimento da linguagem e na aprendizagem da leitura
O contacto da criança com poemas, canções, parlendas e outros textos rimados começa, muitas vezes, bem cedo: nas cantigas de embalar, nas histórias, nas brincadeiras e nas canções de roda. E é importante que assim seja. Estes textos, que brincam com os sons e os significados das palavras, não só favorecem o desenvolvimento da linguagem oral, como também preparam o caminho para a aprendizagem da leitura e da escrita.
Ao contactar com rimas, ritmos e repetições, a criança desenvolve uma atenção mais apurada à estrutura da língua, especialmente à sua dimensão sonora, enriquecendo as habilidades de consciência fonológica: uma competência essencial para compreender o funcionamento do sistema alfabético de escrita.
Como demonstram estudos em neurociência, como os de Stanislas Dehaene, aprender a ler implica uma reorganização importante no cérebro. Para decifrar uma escrita alfabética, a criança precisa articular diferentes sistemas: as áreas visuais passam a reconhecer letras e a decompor palavras em unidades menores, enquanto as regiões responsáveis pela linguagem oral se ajustam para representar os sons da fala. Este processo de coordenação entre o que se vê (grafemas) e o que se ouve/produz (fonemas) é fundamental para que se estabeleça uma via eficiente de conversão entre letras e sons, considerada uma das bases da alfabetização e do acesso autónomo à leitura.
Neste processo, a linguagem ocupa um lugar central. Por isso, diferentes áreas, como a psicolinguística e a fonoaudiologia/terapia da fala, têm vindo a contribuir para uma compreensão mais aprofundada sobre o desenvolvimento da linguagem, da leitura, da escrita e da compreensão linguística, sustentando práticas pedagógicas mais eficazes.
Neste contexto, os textos poéticos assumem um papel particularmente relevante. A chamada “brincadeira verbal” presente nos poemas convida a criança a explorar a linguagem de forma lúdica, desafiando-a a observar, comparar, antecipar e reorganizar palavras e sons. Como refere José Paulo Paes, a poesia chama a atenção da criança para as surpresas escondidas na língua do dia a dia: aquilo que muitas vezes passa despercebido na comunicação habitual.
Para além disso, este tipo de atividade favorece o desenvolvimento de competências cognitivas importantes, como:
- Atenção
- Memória de trabalho
- Flexibilidade cognitiva
- Processamento auditivo
Estas competências são fundamentais para a aprendizagem, especialmente no período de alfabetização.
Importa também destacar o papel das emoções. Os poemas mobilizam afetos (humor, surpresa, alegria, curiosidade), e sabemos hoje que emoção e cognição estão profundamente ligadas. De acordo com Vítor da Fonseca, as emoções ajudam a captar a atenção e a consolidar aprendizagens, tornando-as mais significativas e duradouras.
Assim, ao integrar poemas, canções e parlendas no quotidiano da criança, estamos não só a enriquecer a sua experiência com a linguagem, como também a criar condições mais favoráveis para aprender.
Dra. Clarice Staub Lehnen
Fonoaudióloga Crefono 7-5779